Sinopse 2024

 

Enredo IFÁ

I

Sou a boca que tudo come, esplendor da criação. Comunico! Provoco! Transbordo e teço encruzilhadas – do bem e do mal, a depender de quem vê e caminha. Contarei a vocês a história de Ifá. Ẹnugbárijọ, sigo deglutindo e despejando ìtán, vazios, pedaços, laços no espaço. Hoje, o Anhembi é minha estrada. Reverberem meus passos, minha voz. Rasguem o verbo pois eu sou vocês! Sou humano, sou Èṣù!

II

O nada, avesso de tudo! Espelho do universo infindo, escuridão profunda. Um dia, ali, Olódùmarè despertou. Agito, borbulhas. Fagulhas! De um punhado de estrelas e do brilho dos planetas um espasmo se fez. Estrondo! Tremor! A Terra se fez cabaça – Igbádù, existência – e a natureza se criou. E de minha amizade sincera com Orunmilá, nascia a resposta de todo o sempre: Ifá! É ele quem reina sobre a terra. É ele quem sabe de todas as respostas.

III

O sol despontava em Ilé Ifẹ̀, morada criadora dos Òrìṣà. Foi na poeira do deserto que Ọ̀rúnmìlà ensinou aos seus filhos a filosofia do bom caráter, a arte da adivinhação, a paz de todos os caminhos. Na verdade dos Ikin – Dendê que embrasa! – Odú revelavam o futuro e conectavam ao Ọ̀run, habitar sagrado dos deuses. A ancestralidade, nas melodias do Ìrofá, mostrava que o caminho da felicidade é de todos. Segredos revelados, fundamentos plantados. Do berço Yorùbá, Ifá partiu para espalhar sua magia sobre todo o planeta Terra, pois era hora da humanidade conhecer a verdade.

IV

Se a travessia se deu pela dor a redenção se deu pela fé. Com Ifá reinventado em terras distantes, Bàbáláwo e Ìyápẹ̀tẹ̀bí , homens e mulheres sabedores dos segredos, assentaram o àṣẹ nos muitos cantos das Américas. Lucumís, Vodus, Candomblés e Encantarias transformaram um oceano de incertezas no renascimento de memórias adormecidas nas águas do atlântico. Gira a gira Salvador, e corações inundados de saudade espalharam o espírito por muitos diferentes lugares. E foram, esses, os primeiros passos para que o Ilé-Brasil se tornasse a morada de Ifá para toda o sempre.

V

Água, terra, fogo e ar! A ligação de Ifá com os quatro elementos naturais fez com que sua essência não morresse e suas raízes se mantivessem de pé, em terras brasileiras, até hoje. Pelos olhos do Ọpọ́n Ifá – que é divido em quatro, um para cada elemento – é possível enxergar vidas e caminhos onde os Odú ensinam sobre a dor e a delícia que é o Ser Humano. A partir da correnteza das águas, é possível entender que, apesar das dificuldades, é necessário seguir a vida como o fluxo de um rio que nunca cessa, sempre avança. O arder do fogo ensina que é preciso ter calor pela vida, mas com enorme cuidado para que as labaredas não se voltem contra o próprio humano. O ar, livre e exuberante, mostra que a liberdade de ir e vir é um direito supremo. E a terra, que dá alimento e sustenta, faz parte da energia vital que conecta os homens às suas profundezas. A partir de oferendas aos Òrìṣà e dos mandamentos de Ifá, interpretados com base na filosofia da natureza, a humanidade aprende como a vida deve ser harmônica e respeitosa entre todos os seres – lição, essa, ainda não compreendida por muitos.

VI

Ọ̀rúnmìlà, divindade da sabedoria, oferece a paciência enquanto virtude que permite compreender as diferenças e respeitá-las…Respeitar é lei! É hora do povo de axé vestir seu branco, manifestar sua fé e lutar contra a intolerância religiosa. Baianas, em memória das eternas Ìyá, giram e movimentam o vento dos antepassados para lembrar da força do matriarcado afro-brasileiro em defesa da livre expressão. Mo júbá! Respeitos à Velha Guarda, detentora da sabedoria moldada pelos percalços da vida! Saudamos os que pavimentaram o caminho até aqui e a sabedoria que o tempo ensina! Às nossas crianças, pequenos Ikin, acreditamos na continuidade da luta, na manutenção das histórias e do legado dos que vieram antes. Há de amanhecer um novo dia! Os sonhos não sucumbirão!

E é por minha amizade com Ọ̀rúnmìlà que seguimos resistindo e ensinado que a vida pode ser bela, apesar de tanta intolerância. É caminhando e marchando que se encontra uma direção que libertará, de vez, os nossos sagrados. Cantemos Ifá e o respeito a todas as religiões de matriz africana pois “O futuro é ancestral”. E nunca se esqueçam de uma coisa: Eu sou o caminho! Sou Èṣù, aquele que, em cada encruzilhada, celebra o Brasil como seu filho.

Àṣẹ, Mo júbá. Avante, Tucuruvi! Que o sacrifício seja feito, aceito e manifestado.


Carnavalescos: Dione Leite e Yago Duarte

Texto: Vinícius Natal e Renato Carvalho

Pesquisa: Dione Leite, Renato Carvalho, Yago Duarte e Vinícius Natal

Agradecimentos: Chief Aro Awo Àgbayé Ajala Akanni, Chief Awolowo Akanni Amore Awo Àgbayé, Admula Ilê Asé Esú Oya – Palacio de Esú, Eminência Àràbà Àgbayé e Okitasé, Luiz Antônio Simas e Luiz Rufino.

 

GLOSSÁRIO DE PALAVRAS EM YORUBÁ

(Por ordem de aparição)

Ẹnugbárijọ (Enuguibarijó) = Qualidade de Exu que representa “a boca que tudo come”.

Ìtán (Itãn)= Histórias contadas e vividas pelos Orixás. Sempre passam uma mensagem final ao expectador.   

Igbádù (Iguibadú) = Elemento do culto de ifá, assemelhando-se a uma cabaça, em que mora o princípio gerador de Ifá e do mundo. Lá moram os segredos mais profundos de Ifá.

Ilé Ifẹ̀  (Ilê Ifé) = Cidade sagrada para os Yorubás que ficav localizada na atual Nigéria. Considera-se que nela surgiram a humanidade e os orixás.

Ọ̀rúnmìlà (Orunmilá) = Divindade que se confunde com o próprio Ifá, pois é quem comanda os destinos dos homens e do mundo.

Ikin  = Caroço seco do dendezeiro usado nos assentamentos de Ifá

Odú = Significa destino e é a base do sistema de Ifá. É através dos odus que se lê, no Ifá, os caminhos dos seres humanos pelos quais ele passa e está predestinado.

Ọ̀run (Orun) = Define o “céu” na cosmogonia Yorubá, o paraíso espiritual. Se dá em contraposição ao Àiiê (plano terreno).

Ìrofá (Irofá) = Sineta em formato cônico utilizada pelo olhador para invocar as divindades

Bàbáláwo (Babalaô) = É o líder espiritual no culto de Ifá.

Ìyápẹ̀tẹ̀bí (Yapetebí) = A esposa do Bàbáláwo, também conhece os segredos de Ifá. Porém, não pode iniciar e nem consultar o oráculo de Ifá.

Ilé (Ilê)= Casa, morada.

Ọpọ́n Ifá (Oponifá) = Bandeja de madeira na qual são desenhados os símbolos dos Odú que aparecem no Oráculo conforme a caída do Ọ̀pẹ̀lẹ̀.

Ọ̀pẹ̀lẹ̀ (Opelê ou Opelé) = Espécie de rosário no qual são atadas sementes do dendezeiro

 

OUTRAS PALAVRAS EM YORUBÁ

Irùkẹ̀rẹ = Espécie de rabo de cavalo que representa Ọ̀rúnmìlà

Ìlẹ̀kẹ̀ Ifá =Fio usado no pescoço

Idẹ Ifá = Pulseira usado por iniciados

Òkété = Ratazana, Rato grande. Mesmo que ewú. Tipo de roedor selvagem utilizado em certas prescrições de ẹbọ de Ifá.

Fìlà = Chapéu usado por homens

Ìbó =Instrumento usado no jogo de Ifá para fazer perguntas.

 

BIBLIOGRAFIA

BENISTE, José. Dicionário yorubá-português. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

JAGUN, Márcio de. Orí: a cabeça como divindade. Rio de Janeiro: Litteris, 2015.

_________________ Yorùbá: vocabulário temático do candomblé. Rio de Janeiro: Litteris, 2017.

________________ Ewé: a chave do portal. Rio de Janeiro:  Litteris, 2019.

LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. 4 ed. São Paulo: Selo Negro, 2011.

LOPES, Nei. Ifá Lucumi: o resgate da tradição. 1 ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2020.

SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mórula, 2018.


ARTIGOS

“O Futuro é Ancestral” – Katiúscia Ribeiro, 19 de novembro de 2020; https://diplomatique.org.br/o-futuro-e-ancestral/